Relato · Histórias

Meu caminho até uma terapia afirmativa

Antes de achar uma escuta que me visse por inteiro, passei anos traduzindo a própria vida para quem tratava o racismo como detalhe de biografia.

Tempo de leitura5 min
Publicadojan 2024
CadernoHistórias

Você já abriu a conversa com alguém, digitou "oi, queria saber sobre atendimento", e ficou olhando o texto por três minutos antes de apagar tudo. A foto do perfil continuava ali: alguém preto, sentado numa poltrona cor de terracota, com uma leveza que parecia ensaiada e não era. O dedo hesitava porque a pergunta verdadeira não era sobre horário nem sobre valor. Era se, daquela vez, ia ser preciso explicar tudo de novo desde o começo.

O que uma escuta branca não alcança

A primeira vez que contei, numa sala de terapia, que tinham me seguido dentro do mercado, a resposta foi uma pergunta: se eu não estaria exagerando. Levei meses para tocar no assunto em qualquer consultório de novo. A ferida nova foi essa, aprender que parte do adoecimento era ter que explicar o óbvio enquanto pagava a sessão. Quem nunca foi atravessado pelo dispositivo racial ouve a sua história como caso clínico, não como sintoma de um país inteiro. A diferença entre essas duas escutas é o tamanho do seu cansaço no fim da semana.

Tem profissional que leu Frantz Fanon no mestrado e ainda assim devolve, no divã, um olhar que obriga a pessoa a virar porta-voz da raça inteira. Cada silêncio vira resistência ao processo. Cada raiva, um sintoma para aparar. O racismo que você leva para a sala é tratado como conteúdo manifesto, quando é estrutura, é clima, é chão debaixo do pé. Djamila Ribeiro, em O que é lugar de fala?, lembra que lugar de fala não é sobre calar ninguém, é sobre reconhecer de onde cada voz parte. Num consultório, isso pesa mais do que parece.

Afirmativa não é abraçar, é sustentar

Tem um mal-entendido que precisa cair: terapia afirmativa não é a que concorda com tudo, que acolhe em tom de samba leve, que devolve frase de empoderamento encaixotada. Se fosse isso, eu teria trocado uma muleta por outra. O que procurei, e demorei a achar, foi uma escuta capaz de segurar a complexidade sem reduzir, sem psicologizar o que era político e sem politizar o que era só dor.

bell hooks escreve sobre o amor e o cuidado como prática de resistência. Na clínica, isso vira não precisar justificar, toda sessão, por que certos gestos machucam. A escuta que me serve hoje vem de quem já trabalhou em CAPS de periferia. Não é a cor da pele que faz a terapia funcionar, é o repertório. É saber o nome das coisas que te atravessam antes de você terminar a frase.

Nem toda pessoa preta vai te servir

Seria fácil, e falso, dizer que o caminho é só procurar um profissional negro. A identidade racial de quem atende não é passe livre. Já passei pela escuta de uma mulher preta que reproduzia, com sotaque próprio, o mesmo moralismo meritocrático que aprendi a desconfiar nos espaços brancos. A escrevivência, no sentido que Conceição Evaristo cunhou, não se herda pela melanina. Ela se constrói na disposição de olhar para o próprio pertencimento sem romantizar.

O que funciona, aprendi na pele, é formação antirracista somada a experiência clínica somada a alguma humildade. Profissional branco pode chegar lá, desde que tenha feito o próprio trabalho. Profissional preto pode falhar, quando se convenceu de que a vivência basta. Afirmativa não é crachá, é prática de todo dia.

Como eu filtraria, hoje

Se eu tivesse que refazer a busca sem os anos perdidos, faria três perguntas logo na conversa inicial, e escutaria mais o silêncio entre as respostas do que as respostas.

  • Como você entende a relação entre racismo e sofrimento psíquico na sua clínica, para além da literatura?
  • Você já supervisionou ou foi supervisionado por gente preta, e o que isso mudou no seu trabalho?
  • Quando alguém traz uma cena de racismo, qual é o seu primeiro movimento interno antes de qualquer intervenção?

O caminho certo não é reta, é uma série de saídas.

Cada escuta que não me serviu ensinou algo sobre o que eu precisava, e sobre o que eu recusava continuar suportando em nome de um processo que prometia cura e cobrava tradução. Hoje ocupo a sala sem ter que explicar que ser seguido no mercado não é paranoia, sem justificar que cansaço não é fraqueza, sem converter cada experiência racial em linguagem palatável para ouvido que não conhece o peso dela. Esse silêncio economizado virou matéria para a vida que acontece fora dali, que é onde, afinal, mora tudo o que importa.

Este é um relato pessoal e tem caráter educativo. Não substitui atendimento psicológico individual. Se você está em sofrimento, procure uma psicóloga ou psicólogo de sua confiança. Em momentos de crise, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora, de forma gratuita e sigilosa.

Continue lendo

Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.