Relato · Histórias

Reconstrução após violência racial

Violência racial não acaba quando o episódio acaba. Ela deixa um gesto novo no corpo, e o gesto fica.

Tempo de leitura5 min
Publicadojan 2024
CadernoHistórias

Esta é uma crônica de caráter educativo e reflexivo. Não substitui o atendimento psicológico individual. Se a leitura tocar uma dor sua, considere procurar uma psicóloga ou um psicólogo de confiança. Em momentos de crise emocional, o CVV atende pelo número 188, 24 horas por dia, com sigilo e gratuidade.

Dona Cecília passou a mão na borda da mesa três vezes antes de sentar. Era um gesto que tinha vindo depois. Não sabia dizer quando, exatamente, mas depois. Como se precisasse apalpar as coisas antes de confiar o peso do corpo a qualquer superfície.

A casa que ficou

O quarto de Thiago ficou do mesmo jeito por oito meses. Não por culto, ela explicou à repórter que veio de São Paulo com caderno e gravador pequeno. Ficou porque ela não sabia por onde começar. As roupas penduradas no armário aberto, que esse menino nunca fechava, pareciam esperar alguma instrução que ela não tinha como dar. No nono mês ela dobrou as camisas uma por uma, devagar, como quem aprende a dobrar roupa pela primeira vez. Guardou tudo num saco plástico grande e colocou no alto do guarda-roupa. Não jogou fora. Guardou.

A repórter perguntou como ela tinha se sentido naquele momento. Dona Cecília olhou para a janela. Lá fora, a rua do Jacarezinho seguia com sua vida miúda: uma criança empurrando bicicleta, duas mulheres na porta da padaria conversando com as mãos, um cachorro cor de terra deitado na calçada de qualquer jeito. Ela disse: foi como desembalar uma coisa que você não pediu e não sabe onde colocar na casa.

O documento

Em março, um envelope chegou pelos Correios. Dentro, um papel oficial com o nome dele impresso e uma linha pontilhada esperando a assinatura dela. Ela assinou na cozinha, com a caneta Bic que ficava presa no bloco de recados ao lado do fogão. A caneta secou no meio da assinatura. Ela pegou outra. Dobrou o papel, colocou no envelope de volta, foi até a caixa de correio na entrada do prédio. Voltou. Esqueceu de selar. Foi de novo.

À noite ela fez arroz com feijão e assistiu à novela sem prestar atenção. No andar de cima havia um bebê novo, e o choro descia pelo teto com uma persistência que parecia proposital. Ela apagou a luz às dez e ficou acordada até a meia-noite contando os carros que passavam pela janela. Chegou a vinte e três e parou de contar.

As que vieram

Depois que a história saiu no jornal, uma nota pequena, no rodapé da página seis, sem foto, começaram a aparecer outras mães. Vinham de Realengo, de Acari, de Duque de Caxias, de Belford Roxo. Algumas tinham visto o nome dela nos grupos de WhatsApp. Outras chegaram pelo boca a boca, esse tipo de rede que a dor costura sem pedir permissão. Sentavam na mesma cadeira de plástico azul que ela tinha comprado quando o apartamento ainda era de pessoa solteira. Bebiam café. Algumas choravam. Outras não. Uma senhora de Queimados ficou duas horas em silêncio e foi embora agradecida.

Dona Cecília não sabia o que fazer com tudo aquilo. Não se sentia forte. Sentia um cansaço específico, desses que não passam com sono. Mas continuava abrindo a porta. Esquentava o café. Às vezes ficava pensando se Thiago teria gostado de ver aquilo, a casa cheia assim de gente que a vida tinha machucado do mesmo jeito.

A árvore

Em agosto ela plantou uma muda de pitanga no vaso grande da varanda. A filha de uma das mulheres de Acari tinha trazido, enrolada num jornal. Era pequena, três folhinhas apenas, caule fino como palito de fósforo. Dona Cecília não tinha muita fé que pegaria, ela nunca tinha sido de plantas, Thiago é que gostava de coisa verde. Mas pegou.

A repórter perguntou se plantar a árvore tinha sido uma forma de cura. Dona Cecília levou um tempo para responder. Depois disse que não sabia se era cura. Disse que era uma planta. Que precisava de água todo dia, senão murchava. Que tinha dado um broto novo na semana passada. Que pitanga demora uns dois anos para dar fruto, mas que ela estava sem pressa.

Reconstruir não é voltar a ser. É continuar regando.

A repórter escrevia no caderno com letra pequena e inclinada. Dona Cecília olhou para a varanda. A muda estava lá, no sol da tarde, balançando de leve com o vento que subia da rua. Ela se levantou para buscar mais café e, passando pela janela, parou um segundo para ver se as folhinhas estavam bem.

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Não pare na teoria.

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