Num sábado de manhã em Salvador, no Nordeste de Amaralina, vi uma cena que continua me rondando. Quatro mulheres negras sentadas em cadeiras de plástico num quintal, revezando quem segurava o bebê de uma delas, enquanto outra chorava uma separação recente e uma terceira coava café. Não era terapia, não era grupo de apoio formal, não tinha nome. Era, para usar o vocabulário mais antigo disponível, comadrio. E fazia, naquela manhã, um trabalho psicológico que nenhum consultório da cidade conseguiria substituir. É dessa cena que a gente precisa partir quando fala em cuidado coletivo.
A terapia individual, quando é boa, faz muita coisa. Ajuda a nomear, a organizar, a dar história à dor. Mas opera num recorte próprio do seu formato: uma pessoa, uma hora, uma semana, um valor. Esse recorte foi naturalizado como se fosse a única porta legítima da saúde mental, e não é. É uma porta, entre várias que foram fechadas pela lenta profissionalização dos cuidados no século vinte. Pensadoras do abolicionismo negro, entre elas Angela Davis, vêm insistindo que cuidado e cura não são monopólio da clínica: boa parte do trabalho de sustentar a vida sempre se fez em cozinhas, quintais e espaços de convívio, fora de qualquer consultório.
Onde a vida é preciosa, a vida é preciosa.
A fórmula é de Ruth Wilson Gilmore, pensando geografia carcerária, e cabe aqui inteira. O cuidado não é atributo natural de quem vive na margem. É construção deliberada, feita contra a precariedade imposta. O cuidado coletivo preto, no Brasil, nasce da impossibilidade de esperar que o Estado ou o mercado entreguem o que sempre prometeram e nunca cumpriram por inteiro. Beatriz Nascimento, ao reler o quilombo como categoria viva, mostrou que ele nunca foi só refúgio geográfico. Era organização social total: saúde, educação, segurança, espiritualidade, alimento e a regulação dos próprios conflitos funcionavam integrados, sem a fragmentação que o Estado moderno impõe à vida. O quilombo cuidava porque a sua existência dependia de que cada pessoa estivesse de pé.
Mas preciso recusar aqui uma tentação frequente. Nem toda comunidade cuida. Muitas famílias pretas reproduzem no privado a violência que combatem no público. Muitos coletivos funcionam como tribunal permanente de quem deles faz parte. Muitas igrejas, terreiros e associações de bairro têm hierarquias que sufocam mais do que acolhem. Falar em cuidado coletivo sem essa ressalva é fazer propaganda, não pensamento. Ailton Krenak, quando trata das comunidades que o criaram, nunca idealiza: fala dos conflitos, das rupturas, do que não funcionou. O cuidado coletivo digno desse nome é o que reconhece a complexidade e cria modos de lidar com ela, não o que apaga o atrito em nome de uma harmonia inventada. Comunidade sem atrito é comunidade de fachada.
Não se trata de inventar nada. Trata-se de reconhecer e sustentar o que já circula. As rodas de mulheres nas periferias. As sessões de acolhimento das casas de santo, que fazem trabalho psicológico sem usar esse nome. Os grupos de pais e mães pretas que se encontram para falar sobre como conversar com a criançada sobre racismo. As irmandades do período colonial, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, já mantinham fundos de socorro mútuo para enterro digno, alforria e amparo a quem adoecia. Lélia Gonzalez situou irmandades, quilombos e religiões de matriz africana entre as estratégias históricas de resistência e organização do povo negro no país. Abdias do Nascimento, ao formular o quilombismo, já apontava que essas práticas não são folclore. São tecnologia social de sobrevivência.
O trabalho do Instituto AMMA Psique e Negritude, em São Paulo, parte exatamente desse princípio: a saúde mental da população negra não cabe na moldura individual quando o adoecimento tem causa coletiva, que é o racismo estrutural. O desafio de agora é articular essas práticas com o saber clínico sem submeter uma coisa à outra. A psicologia precisa reaprender a ouvir o que sempre existiu fora dela. E as comunidades precisam reaprender a nomear como cuidado aquilo que foi desqualificado por décadas de modernização autoritária, que chamou de atraso tudo que não coubesse no molde europeu de saúde mental.
Para quem quer contribuir sem esperar política pública perfeita, algumas práticas já mostram resultado em cidades brasileiras diversas:
- Organizar rodas regulares de escuta com regra clara, frequência fixa e mediação rotativa, sem depender de uma só pessoa para sustentar o espaço.
- Dividir o custo de acompanhamento profissional entre quem faz parte do coletivo quando, sozinho, seria inviável, tratando isso como infraestrutura e não como favor entre amizades.
- Reconhecer em público o trabalho invisível de cuidado que certas pessoas, quase sempre mulheres pretas, já fazem, e redistribuir essa carga em vez de apenas agradecer.
O cuidado coletivo não é alternativa romântica ao sistema de saúde mental que temos. É outro nível de operação, que o antecede e o sobrevive. Enquanto os consultórios discutem planos de saúde, nos quintais de todo o país alguém já está segurando o bebê de outra pessoa para que ela possa chorar em paz. Reconhecer isso como tecnologia social é o primeiro passo. Sustentar com estrutura, tempo e recurso é o trabalho político dos próximos anos.
Este texto tem caráter educativo e reflexivo e não substitui o atendimento psicológico individual. Se você está em sofrimento, procurar acompanhamento com uma psicóloga ou um psicólogo segue sendo importante. Em momentos de crise, o CVV atende de graça e em sigilo pelo 188, 24 horas por dia.