Ensaio · Comunidade

Eventos e conexao em diaspora

Evento preto bom nao e o que enche a sala nem o que vai bem na foto. E o que, na segunda de manha, continua funcionando como rede quando alguem liga pedindo ajuda.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2025
CadernoComunidade

Na quebrada onde se cresce preto, a festa de aniversario de uma tia vira assembleia. Entre o bolo e o pagode, rola combinacao de carona para consulta, indicacao de advogada, emprestimo sem juros, recado para quem esta em crise. Ninguem chama aquilo de comunidade terapeutica, de rede de apoio, de mutirao de cuidado. E so domingo. Hoje, quando se fala em evento preto, corre o risco de virar produto: ingresso, lineup, patrocinio, foto bonita no feed. O que se perde quando o encontro deixa de ser funcao e vira programacao?

A diaspora nao pede palco. Pede mesa.

O encontro como infraestrutura

Beatriz Nascimento, nos anos 1980, ja dizia que o quilombo nao e lugar no mapa, e uma forma de organizar a vida. Encontro preto, quando funciona, e isso: infraestrutura afetiva e material que sustenta gente atravessando territorio hostil. O sarau da periferia, a roda de samba da tia, o culto afro, o bloco afro no carnaval, o congresso da ABPN (Associacao Brasileira de Pesquisadores Negros), o bar da esquina onde so entra gente preta. Nenhum desses espacos existe para celebrar identidade. Existe porque, sem ele, a conta nao fecha.

Diaspora, nesse sentido, nao e metafora. E logistica. A gente se encontra porque precisa trocar informacao que o Estado nao da, validar experiencia que o consultorio individualiza, criar memoria que a escola apaga. Quando Abdias do Nascimento formulou o quilombismo, em 1980, descrevia exatamente isso: uma pedagogia do encontro, uma politica do comum que nao espera autorizacao para existir. O evento, entao, e o minimo viavel de uma tecnologia ancestral de sobrevivencia. A Lavagem do Bonfim, em Salvador, carrega essa logica antiga: corpos que a semana separa voltam a pisar o mesmo calcamento, a carregar as mesmas flores.

A armadilha do espetaculo

So que tem um porem. Na era da economia de atencao, o encontro preto virou nicho de mercado. Festival com curadoria, marca patrocinando afrofuturismo, empresa contratando DJ preta para o happy hour da diversidade. Nada disso e, em si, problema. O problema comeca quando o evento se desloca da funcao para o espetaculo, quando a metrica do sucesso vira alcance de midia e nao continuidade de vinculo. Voce sai do role energia pura, posta o story, e na semana seguinte nao sabe o nome de ninguem que estava ali.

Ailton Krenak, em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, tem uma chave que vale para isso: adiar o fim do mundo e, antes de tudo, nao confundir consumo com pertencimento. Quando o encontro preto vira experiencia a ser consumida, perde a funcao de rede. Vira entretenimento cultural identitario, coisa que se agenda no calendario e se esquece depois. A diaspora nao cabe em ingresso individual. Cabe em lista de mensagem que continua viva na quarta-feira. E o mesmo risco que ronda as grandes feiras e marchas quando o patrocinio chega impondo agenda e empurrando o ingresso para fora do alcance de quem fundou o espaco.

Nem saudade, nem romantismo

Tambem nao adianta idealizar o passado como se antes fosse tudo terreiro e hoje fosse tudo feira. A comunidade descrita no comeco tinha violencia, fofoca, patriarcado, lesbofobia, hierarquia de cor dentro da propria familia preta. Nenhum lugar de encontro esta imune a reproduzir o que esta fora dele. bell hooks, em All About Love, insiste que amor nao e sentimento, e pratica: exige verdade, responsabilidade, compromisso. Comunidade tambem. Romantizar a comunidade preta como refugio puro e uma forma de desarmar a critica interna que a mantem saudavel.

A questao nao e voltar a um encontro que nunca foi tao perfeito quanto a memoria pinta. E inventar formas de encontrar que aguentem a complexidade do agora: gente preta LGBT, gente preta evangelica, gente preta universitaria, gente preta da quebrada, gente preta da elite, gente preta imigrante africana no Brasil, gente preta brasileira na diaspora europeia. Nao existe um "nos" preto monolitico. Existe uma pratica de encontro que, quando bem feita, nao apaga diferenca, convive com ela.

Como medir um encontro que cura

Para pensar serio em evento preto como politica do comum, e preciso trocar de metrica. Nao e quantas pessoas vieram. E o que ficou depois. adrienne maree brown, em Emergent Strategy, fala em mudanca fractal: o que acontece em pequena escala, bem feito, replica. Um encontro que gera tres conversas honestas, duas parcerias de trabalho e uma amizade que vai durar dez anos faz mais pela saude mental coletiva do que um festival de mil pessoas que some no dia seguinte.

  • Prefira formatos que permitam escuta, nao so consumo: roda, grupo pequeno, refeicao coletiva, oficina.
  • Cuide do pos-evento como cuida do pre: grupo continuado, reencontro marcado, conversa de acompanhamento um mes depois.
  • Nao terceirize o cuidado para o palco: distribua o acolhimento entre quem organiza, para que ninguem saia invisivel.

O evento preto que importa e o que, quando acaba, deixa alguem com um numero no celular que vai atender na hora dificil. O resto e marketing. A diaspora nao pede palco, pede mesa. E na mesa, de preferencia, com comida, com tempo, com cada nome sendo pronunciado direito.

Este e um texto educativo e de reflexao cultural. Ele nao substitui o atendimento psicologico individual. Se voce esta passando por sofrimento ou crise, procure uma psicologa ou um psicologo, e lembre que o CVV atende de graca, em sigilo, 24 horas, pelo telefone 188.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.