Ensaio · Antirracismo

Racismo científico: desmontando pseudociência

A pseudociência racial trocou o crânio pelo código.

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Publicadojan 2025
CadernoAntirracismo

Em 1911, João Batista de Lacerda subiu ao púlpito do I Congresso Internacional das Raças, em Londres, e levou uma promessa sobre o Brasil: em três gerações, o cruzamento com imigrantes europeus embranqueceria a população e resolveria o que chamavam de problema racial herdado da escravidão. O Estado financiou a viagem e financiou também a vinda de milhões de europeus para substituir a mão de obra negra recém-liberta. A ciência ali não era espelho da política. Era o motor dela.

A frenologia, a craniometria de Samuel Morton e Paul Broca, a eugenia de Francis Galton não foram delírios de mentes excêntricas. Foram programas financiados, publicados em periódicos de prestígio, ensinados nas melhores universidades. Morton acumulou mais de mil crânios para provar uma suposta superioridade cognitiva branca. Broca, o mesmo que mapeou a área da linguagem, declarou equivalentes o volume craniano de mulheres e o de quem ele chamava de selvagens. Galton sonhou com a reprodução seletiva da espécie como quem planeja a criação de gado.

No Brasil, esse repertório foi importado e tropicalizado. Nina Rodrigues classificou pessoas negras e indígenas como criminalmente irresponsáveis, e parte dessa obra ainda circula como referência em cursos de direito. A Liga Brasileira de Higiene Mental, fundada em 1923, abraçou propostas eugênicas de controle reprodutivo voltadas a populações negras e mestiças. Lilia Moritz Schwarcz, em O Espetáculo das Raças, mostrou como faculdades de medicina e institutos históricos entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do XX funcionaram como laboratórios de legitimação de um projeto racista de nação.

Quando a máquina herda o preconceito

O método não se aposentou, mudou de roupa. Stephen Jay Gould, em The Mismeasure of Man (1981), reexaminou os dados de Morton e encontrou erro sistemático: o que contrariava a tese era recategorizado, médias eram ajustadas, casos inconvenientes sumiam. O viés não era acidente, era estrutura. Hoje a mesma estrutura roda em software. O reconhecimento facial que erra mais em rostos pretos, o crédito negado por CEP de periferia, a imagem de IA que devolve uma coisa quando se pede foto de profissional e outra quando se pede foto de suspeito: é o século XIX rodando em Python, agora com a aura de quem se diz neutro. Silvio Almeida lembra que o racismo não é desvio da racionalidade moderna, é um modo dela, e se atualiza nos instrumentos de cada época.

A clínica também reproduz

Há um lugar especialmente silencioso dessa herança, e é o consultório. Em 2005, o FDA aprovou o BiDil como primeiro medicamento indicado a uma categoria racial, um vasodilatador para pessoas negras, embora a categoria fosse social e o tal mecanismo racial jamais tenha sido demonstrado. Lundy Braun, em Breathing Race into the Machine (2014), rastreou herança ainda mais discreta: a correção racial embutida na espirometria, que parte da premissa de que pulmões negros seriam menores e, dentro do software, obriga pacientes negros a estarem mais doentes para receber o mesmo diagnóstico. A mesma lógica operou na equação de função renal, cujo coeficiente racial superestimava a função em pacientes negros e atrasava encaminhamentos para nefrologia e transplante, premissa que levou hospitais a abandonarem o fator racial a partir de 2021. Some-se a isso o que vários estudos vêm registrando: corpos negros recebem menos analgesia, menos tempo de escuta, mais descrédito do sintoma, pior desfecho na maternidade. A discriminação aqui não pede convicção de quem atende. Basta o currículo formado em ilustração branca e caso-padrão branco seguir intacto.

O que une a craniometria de Broca ao algoritmo de hoje não é conspiração, é epistemologia: a suposição de que raça seria variável biológica estável, capaz de explicar capacidade e resposta a tratamento. Incorporada a protocolo e software, vira pressuposto invisível e norma poderosa. Abdias Nascimento já tinha nomeado o truque: o racismo opera melhor quando se veste de neutralidade técnica. Lélia Gonzalez mostrou que produzir conhecimento sobre a população negra foi, ao mesmo tempo, produzir silêncio sobre suas resistências e suas epistemes. Sueli Carneiro deu nome ao crime: epistemicídio, o assassinato sistemático dos saberes que não cabem na racionalidade colonial.

O que fazer com isso

Reconhecer que a pseudociência migrou não é desistir da ciência, é cobrar dela. Algumas direções concretas, longe da performance. Exija auditoria racial de qualquer algoritmo usado em decisão pública, em crédito, saúde, segurança e seleção. Apoie a entrada e a permanência de pesquisa preta nas bancadas onde o conhecimento é produzido, não só citado. E leia com desconfiança todo argumento que biologiza desempenho, inteligência ou comportamento, porque a linhagem é antiga e só o endereço mudou.

Raça não existe como biologia, mas o racismo constrói corpos todos os dias. Entre a declaração que diz que a ciência já resolveu isso e o consultório onde a paciente preta é dispensada com dipirona, há um século inteiro de trabalho que ninguém teve a coragem de fazer. Aqui, esse trabalho começa pelo nome certo.

Este texto tem caráter educativo e histórico e não substitui acompanhamento psicológico individual. Se o racismo e seus efeitos têm pesado sobre a sua saúde mental, procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar. Em momentos de sofrimento intenso, o Centro de Valorização da Vida atende de graça pelo 188 e em cvv.org.br.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.