Ensaio · Antirracismo

Apropriação cultural vs. apreciação

A diferença não está na intenção. Está no poder.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2025
CadernoAntirracismo

Houve um tempo, não tão distante, em que se prendia gente preta na Bahia por tocar tambor, quando o batuque era caso de polícia. Hoje uma marca de luxo lança coleção inspirada em "ritmos ancestrais" e vende bolsa por uma fortuna, enquanto quase nada do dinheiro volta para os terreiros que guardaram a memória quando ela ainda era crime. Entre um momento e outro, os mesmos tambores viraram patrimônio, trilha de novela, tema de desfile lá fora. É nessa distância, e não no microfone de quem reduz tudo a "pode ou não pode usar turbante", que o debate sobre apropriação cultural precisa acontecer.

Você já deve ter visto a cena: a oposição entre apropriação e apreciação virou veredicto de rede social. O surfista branco de dreads é culpado, a pessoa negra de quimono é absolvida, e a conversa acaba antes de começar. O binário é confortável porque dispensa pensar. Mas ele falha como ferramenta justamente onde mais importa, porque convida a julgar coração quando a pergunta verdadeira é outra: quem lucra com o gesto? Quem ganha prestígio, dinheiro, o poder de contar essa cultura para fora? Um DJ que toca funk em festival europeu e não sabe o nome de nenhuma MC da quebrada não precisa ser má pessoa para que a cena toda funcione como extração. A questão nunca foi o sentimento. Foi a posição.

O conceito tem raiz precisa, e vale conhecer antes de usar. bell hooks descreveu como a cultura negra foi consumida pela branquitude na forma de mercadoria exótica, o Outro como experiência a degustar, nunca como pessoa a reconhecer. Edward Said já havia mostrado, em Orientalismo, como o Ocidente construiu o "Oriente" à própria medida, a serviço dos próprios interesses. O que une os dois argumentos não é o contato entre culturas, que sempre existiu e sempre vai existir. É a direção do poder dentro desse contato: quem atravessa a fronteira, com que autoridade, e com que retorno.

No Brasil, a palavra chegou atrasada, mas a coisa que ela nomeia tem séculos. Lélia Gonzalez foi direta ao escrever sobre o samba e a capoeira como criação preta que o país abraçou enquanto perseguia os corpos que produziam uma e outra. O axé dos anos 1990 é o caso mais didático: nasceu nos blocos afro de Salvador, carregado de identidade do movimento negro baiano, e foi rapidamente capturado por gravadoras e por bandas de formação branca que o transformaram em produto de verão sem devolver nada à origem. Antonio Risério, que estudou de perto o carnaval baiano e a transformação dos blocos afro, ajuda a ler esse processo: uma espécie de gentrificação cultural muito antes de a palavra "gentrificação" virar moda.

Aqui o problema ganha um verniz só nosso, o da chamada democracia racial, que Abdias do Nascimento passou a vida desmontando. Neste país, saquear se rebatiza de "misturar", de "brasilidade", de prova de que racismo não existiria. O samba, criado em quintal de mulher preta pobre, vira patrimônio nacional genérico enquanto quem compôs morre sem direito autoral. O axé sobe a escada social, troca de cor na capa do disco, e o terreiro continua apanhando de pedrada. Florestan Fernandes já enxergava esse mecanismo: o mito da integração serviu para absorver a contribuição preta sem redistribuir o acesso à produção, à propriedade da obra, ao capital que a cultura gera. É um modelo mais sofisticado que a segregação explícita, porque suga e sorri ao mesmo tempo.

Os exemplos não faltam, e são de propósito desconfortáveis. Terreiro de Candomblé transformado em ponto turístico, com agência cobrando ingresso sem que um centavo chegue à mão de quem zela pelo espaço sagrado. Indígena fotografada para capa de revista de moda: o corpo vira símbolo, a comunidade segue invisível. A pessoa branca que usa turbante numa festa como gesto isolado de "afirmação", ignorando que para a mulher negra o turbante carrega séculos de resistência ao apagamento forçado de uma identidade. O elemento atravessa a fronteira com facilidade. A punição e o lucro é que ficam em lados opostos dela.

Nada disso quer dizer que cultura deva ficar trancada. Sincretismo não é fraude, é condição de tudo que está vivo. O samba sobreviveu porque circulou, contaminou e se deixou contaminar. A capoeira chegou ao mundo porque saiu do quilombo e da periferia. O que separa a circulação legítima do saque não é o cruzamento, e sim três coisas que a apreciação honesta exige e a apropriação evita: contexto, consentimento e contrapartida. Saber de onde vem. Reconhecer quem fez. Devolver algo, seja crédito, dinheiro, espaço, ou simplesmente o silêncio de quem entende que aquela conversa pertence a quem vive aquilo. O mesmo DJ que cita, que paga, que leva a MC da quebrada para o palco, aprecia. O que assina o remix sozinho e fica com o cachê inteiro, se apropria. A linha não é difícil de enxergar. É difícil de aceitar, porque pede que quem tem a centralidade abra mão de um pedaço dela, e ninguém faz isso por conta própria.

A cultura preta brasileira seguiu viva apesar de três séculos de tentativa de silêncio. Não pede permissão para circular, e não vai pedir. O turbante pode ser bonito na cabeça de quem quiser. Mas quando a marca que vende é branca, a modelo é branca, a assinatura é branca, e a mulher negra que criou aquilo não aparece em lugar nenhum, isso tem nome, e não é apreciação. É extração com embalagem nova. A pergunta que sobra é só uma: quem circula em cima dessa cultura vai seguir fingindo que é herança comum, ou vai enfim fazer a conta de quem pagou, ao longo de todo esse tempo, a conta do terreiro?

Este texto tem caráter educativo e de reflexão. Não substitui acompanhamento psicológico individual. Se as marcas do racismo pesam na sua saúde mental, procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.